Neurovisão: Nova abordagem para os distúrbios de aprendizagem chega a Teresina

Postado em: 18/03/2019 ás 4:15 PM / Categorias: Notícias / Nenhum Comentário /

Você sabe o que é Neurovisão? Há anos a oftalmologia se dedica ao estudo e correção de doenças ou problemas que ocorrem nos olhos. A Neurovisão por sua vez, é uma nova área na Oftalmologia que estuda o processamento a nível de sistema nervoso central das informações captadas pelos olhos.

Ou seja, as atenções são voltadas às condições neurossensoriais de condução dos estímulos fotoquímicos, os processos corticais e subcorticais envolvidos com a visão, além das possíveis alterações visuoperceptuais que podem ser causadas por alguma disfunção nesse sistema. Enfim, a Neurovisão propõe um conhecimento mais amplo sobre a visão, uma abordagem voltada mais para a nossa visão dinâmica.

Grande parte do conhecimento sobre Neurovisão é recente, posterior a chamada década do cérebro nos EUA (1990 a 2000). No Brasil, essa ciência ganhou maior destaque com os estudos do Laboratório de Pesquisa Aplicada a Neurovisão (LAPAN), criado em 2009 pelo Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães (HOlhos) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Apesar de nova, essa ciência ganhou o país, e em Teresina, no Hospital de Olhos Francisco Vilar, já existe profissional que se dedica ao trabalho em Neurovisão, a Dra. Janaine Braga. Ela explica que a nova ciência da visão traz luz a problemas de dificuldade de leitura e aprendizagem em crianças, ou queixas de estresse visual que antes não encontravam justificativas na Oftalmologia convencional. “Eram pacientes antes invisíveis, por não se encaixarem nos diagnósticos convencionais da Oftalmologia e que saíam do consultório médico sem uma solução para suas queixas, algumas vezes taxadas de irreais ou exageradas”, explicou Janaine.

A Neurovisão traz, portanto, inovações para o tratamento dos Distúrbios de Aprendizagem Relacionados à Visão (DARV). O principal deles é a Síndrome de Irlen.

Síndrome de Irlen (SI)

Pesquisas mostram que 42 países possuem centros de diagnóstico e tratamento da síndrome. No Brasil, a disfunção ainda é pouco conhecida, mesmo com as altas taxas de prevalência em todo o mundo: 12 a 14% da população em geral, incluindo bons leitores; 33 a 46% dos indivíduos com déficits de atenção e/ou dislexia; 55% dos indivíduos com traumatismos cranianos, lesão contragolpe, concussões e etc.

“Síndrome de Irlen é um distúrbio visual-perceptivo causado por um desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz, que produz alterações no processamento visual. São distorções em materiais de leitura e escrita, que podem resultar em déficit de aprendizado e consequentemente um mau rendimento na escola. Vale ressaltar que os portadores da síndrome de Irlen não têm consciência de suas distorções, pois estão habituados a elas e acham que os outros enxergam da mesma maneira que eles”, comenta a especialista.

O nome é devido à psicóloga americana Helen Irlen, que realizou os primeiros estudos e pesquisas envolvendo milhares de adultos considerados analfabetos funcionais, com foco nos sintomas “visuais” que estes adultos apresentavam. As manifestações mais frequentes são:

  • – Fotossensibilidade (desconforto ou irritabilidade sob luzes fluorescentes, luz solar direta, faróis de carros);
  • – Desfocamento a leitura com descrição de distorções visuais;
  • – Restrição de campo visual periférico;
  • – Cefaleia e/ou enxaqueca;
  • – Dificuldade na manutenção da atenção;
  • – Baixa coordenação espaço-temporal (dificuldade na prática de esporte com bola);
  • – Dificuldade para direção de veículos automotivos, quanto a noção espacial.

 

A especialista acrescenta que os sintomas da síndrome são parecidos com dislexia e TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, e que é uma disfunção que pode vir associada com estes transtornos e também com o transtorno do espectro autista. “Acredita-se que o sistema visual afetado na disfunção é o relacionado à percepção do movimento e de profundidade. É como se o paciente não percebesse bem o movimento, gerando reflexos mais lentos. Este sistema é conhecido como via magnocelular e é quem guia e integra os movimentos oculares e os movimentos do corpo”, relata.

A oftalmologista Janaíne Braga acrescenta que com o diagnóstico correto, o tratamento é feito com uso de óculos com filtros espectrais ou, nos casos mais leves, com o uso de overlays (folhas de acetato que devem ser sobrepostas ao material de leitura). “Os óculos atuam tornando a visão mais confortável e corrigindo o mal estar provocado pela hipersensibilidade à luz, com repercussões positivas sobre o rendimento escolar e o comportamento destas crianças que muitas vezes tornam-se menos irritadas e mais seguras”, ressalta a profissional.

Outro aspecto relevante é que os filtros são um recurso assistivo, não se tratando de intervenção medicamentosa nem invasiva. “Os filtros também não substituem o trabalho já bem estabelecido e eficaz dos psicólogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, neurologistas, fonoaudiólogos… enfim, a equipe multidisciplinar que é responsável pelo desenvolvimento das habilidades cognitivas destas crianças, mas eles entram como um potencializador evidente neste processo”, finaliza a especialista.

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